Extremistas hindus invadem igreja doméstica, espancam pastor e agridem crianças na Índia
Ataque ocorreu durante culto em vila no estado de Madhya Pradesh; pastor ficou quatro dias hospitalizado e enfrenta falsas acusações de conversão forçada
Imagem: João Fredricks Um ataque violento contra cristãos na Índia expõe mais um capítulo da crescente perseguição religiosa no país. No dia 7 de fevereiro, o pastor Ramesh Barela, de 42 anos, liderava um culto em uma igreja doméstica na vila de Kotwara, no distrito de Khandwa, estado de Madhya Pradesh, quando mais de 100 pessoas, lideradas por grupos extremistas hindus, cercaram e invadiram a residência.
Quatro famílias, totalizando 16 pessoas, estavam reunidas para o culto que começou por volta das 21h. Segundo relato do pastor Barela à organização Morning Star News, ao se dirigir ao local do culto, ele foi notado por apoiadores de grupos de extrema-direita hindu. "Nos dias de hoje, eles expandiram sua rede e estão vigilantes; a notícia se espalha rápido pelos grupos de WhatsApp", afirmou.
A multidão cercou a casa, arrombou as portas da frente e dos fundos e invadiu o local empunhando grossos pedaços de madeira. Os agressores foram diretamente em direção ao pastor e começaram a espancá-lo. Apesar da violência, o teto baixo da casa impediu que usassem as varas com força total. "Eu repetidamente disse a eles que a violência física não era solução para qualquer queixa que tivessem, e que deveríamos sentar e conversar, mas eles continuaram me batendo", contou Barela.
Os extremistas tentaram arrastar o pastor para fora da casa para usar os pedaços de madeira, mas os membros da congregação o seguraram. A multidão então passou a agredi-lo com socos e chutes. Aqueles que tentaram impedir a violência também foram atacados, incluindo mulheres e crianças.
"Eles puxaram os saris e blusas das mulheres, ultrajando seu pudor, e chutaram as crianças pequenas", relatou o pastor. Dois netos de Naval Singh, anfitrião do culto, sofreram ferimentos internos no peito após serem chutados e agredidos. A multidão também quebrou a cadeira usada pelo pastor e vandalizou a casa "como se estivessem procurando algo".
Pastor Barela acredita que os agressores buscavam Bíblias para usar como prova de conversão forçada, mas não encontraram nenhuma, já que ele utiliza um aplicativo da Bíblia no celular em vez de uma cópia impressa. Durante a agressão, ele perdeu seu telefone. Outro cristão tentou filmar o incidente, mas os extremistas apagaram as luzes da casa.
O pastor foi espancado até perder a consciência. "Eles me batiam de todos os lados, e alguns me atacavam constantemente pelas costas. Eu não conseguia vê-los, e de repente perdi a consciência", recordou.
Um cristão acionou a polícia, que chegou ao local e levou o pastor Barela e Naval Singh ao hospital governamental em Khandwa. Ambos foram internados após avaliação médica. Barela permaneceu quatro dias hospitalizado e, após receber alta, precisou de mais dois dias de internação em um hospital particular. Até o momento da publicação, ambos continuavam sob medicação.
Acusações falsas e prisão negada
No dia seguinte ao ataque, 8 de fevereiro, a polícia de Piplod registrou dois casos separados. Um deles, com base na queixa de Naval Singh, nomeou três agressores identificados: Kishore Banjara, Pawan e Bharat Banjara. Eles foram acusados de cantar músicas obscenas em local público, causar ferimentos voluntários, intimidação criminal e ofensas sob a Lei de Prevenção de Atrocidades contra Castas e Tribos.
Singh afirmou em sua queixa que estavam orando a Cristo em sua casa quando a multidão liderada pelos três homens arrombou as portas e começou a agredi-los. Ele sofreu ferimentos no pé direito e nas costas. Sua filha e noras também foram agredidas. Os três agressores usaram palavras depreciativas relacionadas à casta das vítimas e linguagem abusiva, ameaçando matá-los se "convertessem alguém".
O segundo caso foi registrado por um membro da multidão, Vijay Kumar Rathore, contra três cristãos, incluindo o pastor Barela. Rathore alegou que eles estavam tentando converter hindus ao cristianismo — o que não é ilegal na Índia — e que tentaram coagí-lo a se converter, agredindo-o quando ele recusou. Os três cristãos foram acusados de causar ferimentos voluntários, intimidação criminal e conversão religiosa ilegal sob a Lei de Liberdade Religiosa de Madhya Pradesh de 2021.
Um advogado que representa Singh, Vishwakarma e o pastor Barela solicitou fiança preventiva no Tribunal Distrital, mas o pedido foi negado em 13 de fevereiro. Embora nenhuma prisão tenha sido efetuada de ambos os lados, o pastor Sunil Arya, amigo de Singh, afirmou que "as acusações contra os cristãos são mais graves, então os cristãos precisam obter fiança preventiva o mais rápido possível".
O pastor Barela, que não retornou para casa desde o ataque, aguarda fiança preventiva do Tribunal Superior em Jabalpur, Madhya Pradesh. Ele tem quatro filhas e também cuida da filha de seu irmão falecido. Três das cinco filhas são casadas, e duas ainda estão no ensino fundamental. "Por favor, orem por mim. Com essas falsas acusações contra mim, minha família está pagando um preço alto. Minha esposa não tem recursos para sustentar a família, e eu também estou desamparado", desabafou.
Defensores dos direitos religiosos apontam que o tom hostil do governo da Aliança Democrática Nacional, liderado pelo partido nacionalista hindu Bharatiya Janata Party, contra não-hindus tem encorajado extremistas hindus a atacar cristãos desde que o primeiro-ministro Narendra Modi assumiu o poder em maio de 2014. A Índia ocupa atualmente o 12º lugar na Lista Mundial da Perseguição 2026 da organização Portas Abertas, que classifica os países onde é mais difícil ser cristão, subindo da 31ª posição em 2013, antes de Modi chegar ao poder.




COMENTÁRIOS